24/01/2020

Opinião | Não Digas Nada à Mamã | Toni Maguire | Edições ASA

Toni tinha apenas seis anos quando o seu mundo ruiu.
Quando o pai teve a sua primeira atitude obscena, a pequena Toni arranjou coragem para contar à mãe o que tinha acontecido, certa de que esta traria a normalidade de volta à sua vida. Mas a mãe fez o impensável: disse-lhe para nunca mais falar nesse assunto.
Não Digas Nada à Mamã é o relato verídico e tocante da pior das traições; uma história de coragem que inspirou centenas de milhares de leitores em todo o mundo.

Tenho de ser sincera e admitir que fiquei um bocado chocada com o relato desta mulher, vitima de abusos sexuais violentos, quando criança, no seio da sua própria casa.
Este livro traz-nos a história de Toni Maguire. A agora mulher que pretende exorcizar todos os males do seu passado enquanto criança ao mesmo tempo que acompanha os últimos dias de vida da mãe. A pessoa que ela mais amava e que, no entanto, fechou os olhos a todo o sofrimento que a filha era sujeita às mãos do próprio pai.
Esta história poderia ser a história de qualquer outra criança, uma vez que são tantas as que são maltratadas tanto a nível físico como psicológico e que não podem contar com ninguém para as salvar de uma infância infeliz e dolorosa. 
Nesta caso, temos Toni, uma menina que até bem perto dos seis anos foi amada e cuidada como se fosse uma princesa, embora não fossem ricos e mudassem de casa várias vezes. Era a menina dos olhos da mãe e, também do pai, quando ele estava por casa.
No entanto, a partir dos seis anos as coisas mudaram e, o que seria um acto normal de um pai que quer ir dar um passeio com a filhota pequenina, passa a um acto deplorável, vergonhoso e hediondo. Um pai que abusa da própria filha pequena, que ainda nem sabe bem o que é o mundo, é, no mínimo um ser desprovido de todo e qualquer senso de rectidão, amor e vergonha. Alguém que, em alguma altura da vida, merecia que lhe fizessem passar pelo mesmo terror e pela mesma dor que ele infligiu à filha por tantos anos.
Seria de esperar que a mãe amada de Toni fosse a primeira a acabar com o que se estava a passar assim que soube da boca da própria filha aquilo que o marido andava a fazer nas costas dela e nos "passeios" que davam sozinhos. No entanto, limitou-se a fechar os olhos todas as vezes em que viu a filha sofrer. A partir da altura em que Toni diz à mãe o que aconteceu, o tratamento amoroso a que estava habituada acaba e passa a ser uma menina negligenciada e abandonada, praticamente à sua sorte. Os únicos amigos que tinha eram os animais que iam resgatando aqui e acolá.
Entre a tentativa de Toni ajudar a sua memória de quando era pequena e o perdoar a mãe antes que ela morra, Toni vai reviver tudo o que passou e desenterrar acontecimentos e sentimentos que tinha enfiado bem fundo da sua memória, mas a verdade é que ela precisava libertar aquela pobre menina traumatizada e triste que vivia dentro dela, e isso só aconteceria se ela enfrentasse as memórias de frente.
Sinceramente, achei traumatizante e dolorosa a forma como Toni nos conta tudo o que aconteceu a ela, uma criança que virou mulher cedo demais e a quem a infância foi traiçoeiramente roubada por quem deveria protegê-la com todas as forças e por todos os meios.

Uma das muitas frases que me marcaram, pela forma como nos transmite a dor daquela menina, foi:

"Uma tristeza terrível ameaçou tomar conta de mim, enquanto me perguntava como é que duas pessoas capazes de tanto amor uma pela outra, acabaram sentindo tão pouco pela criança que tinham feito entre elas."

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