10/05/2019

Opinião | A Ilusão de Merit | Colleen Hoover

 Merit Voss tem uma vida pouco normal. Vive numa igreja reconvertida com uma família disfuncional e pouco ortodoxa: a mãe, sobrevivente de cancro, ocupa um quarto na cave, o pai é agora casado com a antiga enfermeira da mãe, o meio-irmão mais novo não pode comer nem fazer nada que seja divertido e tanto o irmão mais velho como a sua irmã gémea, Honor, são a imagem absurda da perfeição. E Merit sente que nunca será assim.

Merit colecciona troféus que não ganhou e segredos de família que é obrigada a guardar. Numa visita a um antiquário em busca do próximo troféu, Merit conhece Sagan, que logo a deixa completamente desarmada e com um novo brilho nos olhos – até ela perceber que ele é inalcançável.

Cansada de se sentir invisível, e cada vez mais mergulhada no abismo, Merit decide acabar com a ilusão da família perfeita e revelar a verdade há tanto tempo escondida. Mas não estará Merit também a esconder a verdade sobre si mesma?


(Pode Conter Spoilers...) 

Como sempre Colleen Hoover não desiludiu. 
(Graças a Deus continua fantástica a cada livro que escreve)

Não vou alongar-me muito nesta opinião porque senão corro o risco de contar o que realmente se passou e não quero estragar a leitura a ninguém.
Merit, é o nome da nossa personagem principal. Tal como nos é informado no resumo do livro, é uma jovem adolescente que colecciona troféus que não ganhou, como forma de compensar todos os acontecimentos negativos e traumas pelos quais passa diariamente.
Se por um lado tenta passar despercebida, por outro lado, é constantemente colocada em focos de atenção, quanto mais não seja por fazer parte de uma família deveras estranha e disfuncional, na qual tem a certeza que não devia pertencer. 
Tem dois irmãos filhos dos mesmos pais, sendo que Honor é a sua irmã gémea idêntica, e um meio irmão, fruto da relação extra-conjugal do pai com a enfermeira da mãe. Achei muito fofo a forma como Merit adorava o seu pequeno meio-irmão e nunca o rejeitou, tendo em conta a forma como foi concebido. Como se esta situação não fosse constrangedora o suficiente, ficamos também a saber que moram todos numa Igreja da vila, que foi reclamada pelo pai e, como se não bastasse, a mãe mora no mesmo edifício, só que na cave. Quão estranho é isso? A meu ver, muito!
Ora, Merit é uma querida. A sério. Apesar de dar-nos sempre a ideia de que é menos do que todos os outros, principalmente em relação à irmã gémea que é "perfeita", Merit mostra-nos que é uma jovem sensível e atenta a tudo o que se passa à volta dela, embora passe despercebida em casa. 
Nem sempre foi assim. Houve dias em que se dava muito bem com a sua gémea e com o seu irmão mais velho. Num belo dia tudo mudou e a relação que tinha com os dois tornou-se pesada e apenas sustentável. Uma jovem que não sabia nem onde pertencia, nem a quem. Tem um coração enorme e ao longo do livro vamos vendo que, não fosse tudo o que tinha acontecido no passado, e todos os segredos que ela guardava desde muito pequenina e seria uma adolescente cheia de vida e de esperança no futuro. Mas quando o passado foi o que foi e o presente revela-se tão ou mais penoso, que futuro é que uma pessoa espera? Um muito escuro, com certeza.
É quando conhece Sagan, o jovem que, estranhamente, tomou o seu lugar na família dela, talvez por todos assumirem que ele é namorado de Honor, que Merit tem uma vontade enorme de abrir o coração e entregar-se plenamente a um grande amor. Só que, tem de esquecer Sagan pois é namorado da irmã e isso não pode ser. Ou serão que não?
É curioso como vamos juntando todas as peças do passado de Merit e chegamos ao presente, quando ela tem uma espécie de surto emocional e revela os segredos de todos os elementos da família, e não só, que vem guardando ao longo dos anos. Ninguém escapa: O pai, a mãe, a irmã, o irmão e até o inesperado irmão da madrasta. Foi tudo no vendaval emocional que proporcionou a Merit ser genuína e fazer-se ouvir e notar. Aliás, apenas uma pessoa escapa. Sagan.
Sagan, por sua vez, também traz uma bagagem emocional muito grande, mas mesmo assim, não deixa de ser sensível, carinhoso, atencioso e extremamente atraente aos olhos de Merit. Tem um dom artístico e coloca em desenhos todas as suas mensagens mais importantes, como metáforas visuais perfeitas. Consegue mostrar, muito subtilmente, a Merit que ela pode e é mais do que apenas a irmã gémea de Honor e que merece ter o seu lugar e a sua voz onde quer que esteja. 
Adoro esta personagem. Um miúdo que traz uma quietude irrequieta (posso usar esta expressão?) a toda a história.

Adorei a forma como Colleen Hoover entrelaça todas as personagens dos seus livros e este foi mais um exemplo de como todos os intervenientes da história podem ser completamente diferentes uns dos outros mas mesmo assim, completarem-se aos poucos.
Venha o próximo :p

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