06/06/2019

Opinião | Em Nome do Amor | Lesley Pearse | ASA

Katy Speed tem 23 anos e o sonho de viver em Londres, longe da pequena cidade de Bexhill-On-Sea e do temperamento difícil da mãe.
Enquanto não consegue escapar, acompanha avidamente a vida de Gloria Reynolds, a simpática e glamorosa vizinha da frente. Para Katy, entediada com a pacatez do seu dia a dia, as estranhas movimentações na casa de Gloria são um alimento para a imaginação...
Quem serão as mulheres que a visitam ao sábado num carro preto? E porque é que por vezes vêm acompanhadas de crianças? O certo é que essas atividades suspeitas provocam algum desconforto na comunidade.
Uma noite, porém, um incêndio devastador vai por fim a tudo isso… e também à vida de Gloria e da filha. Depressa se torna evidente que se tratou de fogo posto, uma notícia chocante para todos mas principalmente para Katy, pois o principal suspeito é o seu pai.
Ela sabe que ele é inocente.
E vai fazer tudo para o provar... nem que para isso tenha de arriscar a própria vida.

Romance de amor e história de coragem, Em Nome do Amor é uma incursão perturbante ao lado negro das relações humanas. No magnífico retrato de uma época já distante, a autora bestseller trata com profundidade e coragem temas tremendamente relevantes ainda nos dias de hoje

(Pode Conter Spoilers...)
 
Já não lia Lesley Pearse há algum tempo e já não me recordava bem o quão intensa ela consegue ser nas suas histórias e o quão rectilíneas e intensas as suas personagens geralmente são.
Neste livro temos a história de Katy Speed. Um jovem sonhadora em plena década de 60. Sonha sair da sua terrinha pacata e mudar-se para Londres, onde tudo acontece e onde quer ser bem sucedida e feliz. No entanto, quis o destino que se visse envolvida num acontecimento trágico que lhe vai virar a vida do avesso.
Ao longo do livro, vamos tendo várias versões da Katy. Aquela que apenas sonha em sair do sítio onde mora e ir viver para Londres com a sua melhor amiga. A que não sabe lidar com o temperamento austero e rígido da mãe. A que fará tudo para conseguir tirar o pai, que tanto adora, da cadeia, preso por um crime que não cometeu. A que consegue mudar-se para Londres, arranjar um novo emprego e, quiçá uma nova paixão. E, não menos importante, aquela que sofre na pele um trauma hediondo e que, pela coragem que tem dentro de si, cresce e amadurece, conseguindo encarar todos os problemas que a vida lhe coloca à frente, de uma forma ponderada e adulta.
Para além de Katy, este livro aborda um tema cada vez mais falado hoje em dia, infelizmente não pelos melhores motivos. A violência doméstica que, muitas vezes leva à morte das agredidas, é, para mim, o tema central deste livro. Tudo acontece porque um dia alguém, uma mulher algures, foi agredida brutalmente e fartou-se de ser o saco da porrada do marido e procurou ajuda e abrigo em outras mulheres que outrora estiveram na mesma posição e que deram um rumo às suas vidas. Vidas estas, dedicadas a ajudar quem mais precisava.
É de louvar a forma como duas mulheres traumatizadas pela violência, conseguem ajudar tantas outras mulheres, principalmente as que queriam mesmo ser ajudadas.
De uma forma muito sóbria e séria, ainda que ficcionalmente, Lesley Pearse relata-nos o que tantas vezes acontece na vida real, utilizando para isso, personagens cheias de personalidade, inteligência e dinamismo. São estas personagens, as femininas e as masculinas, que dão vida a este livro e conseguem fazer mesmo tudo em nome do amor, sem segundas intenções e sem tirarem proveito disso, exceptuando o prazer e a sensação de dever cumprido.
Gostei muito, embora tivesse gostado de ler mais sobre Katy e Charles, o advogado terno e amoroso que moveu mundos e fundos para a encontrar e que é uma das excepções à regra no que toca ao tratamento que muitos homens aplicam às mulheres, que supostamente deveriam proteger e acarinhar, amar e honrar, até que a morte os separe.

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