19/03/2019

Opinião | Corações Quebrados | Sofia Silva | Editorial Presença

Uma relação maior que um oceano. Entre as dores da perda e a incapacidade de seguir em frente, Emília vive os seus dias numa clínica. Está estagnada. É nesse inferno pessoal que ela conhecerá Diogo, alguém que também foi vítima de uma tragédia.

Será que é possível dois corações quebrados encontrarem a felicidade?
Numa sociedade onde a aparência continua a valer mais do que a essência, é difícil continuar a jornada da vida quando tudo nos é arrancado. Passamos os dias a olhar para a capa das pessoas. Julgamos, sem compreender que nunca conheceremos totalmente uma história sem ler cada página. Sem compreender o seu início, meio e fim. Duas pessoas fisicamente distantes. Dois corações quebrados pela vida. Dois sotaques que se misturam entre a dor, o riso e o amor.

Olhem para a capa de cada pessoa, mas virem a primeira página.

(Pode Conter Spoiler...)
Estava ansiosa por ler este segundo livro da série "Quebrados" publicada em Portugal pela Editorial Presença. Depois de "Sorrisos Quebrados" em que Sofia Silva, a autora, nos apresenta Paola e André, temos Emília e Diogo. Um casal marcado pela tragédia e pela dor física e emocional de se perder quem mais se ama. Ela, no auge da sua juventude, perde a família toda num acidente de carro, acabando com todas as suas expectativas de ser feliz no presente e no futuro. Ele, um ex-soldado traumatizado por ter perdido, no campo de batalha, os seus melhores amigos e companheiros, perdendo toda a alegria e vontade de viver. Ela, no Brasil e ele no nosso belo Portugal. Uma relação que começa online e como uma amizade que visava um apoiar o outro e que, de repente, torna-se num amor enorme e capaz de enfrentar seja o que for, ou assim parecia.
Emília, uma jovem triste e marcada fisicamente pelo acidente que sofreu com os pais e os irmãos, encontra-se confinada ao seu quarto na clínica em que está desde que saiu do hospital. Não tem qualquer amor próprio desde que o ex-namorado decidiu que não tinha capacidade para lidar com os problemas que ela viria a ter derivados do acidente e, assim, para além da dor emocional de ter perdido a sua família, vê-se como apenas um corpo que outrora foi um corpo inteiro e atraente. É compreensível que ela sinta que não vive, apenas vai sobrevivendo todos dias passam. Não fosse pelo terapeuta de Diogo, em Portugal, e Rafaela, psicóloga e dona da clínica onde Emília passa os seus dias, no Brasil e eles podiam nunca ter-se conhecido. Se por um lado temos uma Emília "desfeita" e morta para a vida, no outro lado temos Diogo. Alguém que sempre teve alegria de viver e que, de uma hora para a outra, vê-se sem os seus melhores amigos, mortos em combate mesmo em frente dos seus olhos. Também ele marcado fisicamente pelas guerras que travou, sente que não devia nem merecia ter sobrevivido. Porquê ele e não os amigos? Traumatizado e meio morto por dentro, Diogo encontra em Emília uma nova oportunidade de ser feliz e, é Diogo quem mais vai lutar por si, por ela e pela felicidade, honrado tudo o que os seus amigos eram.
Não é de admirar que Emília se tenha deixado levar pelo nosso maravilhoso sotaque português e tenha aceitado aquilo que Diogo tanto queria entregar-lhe. No entanto, Diogo vai ter que lutar muito para que Emília aceite, acima de tudo, que, apesar de tudo, é ainda uma mulher vibrante e que ainda tem muita vida pela frente. Aos poucos e poucos, Diogo vai conseguindo colar os pedacinhos todos do coração despedaçado de Emília e, de certo modo, também os seus.
A frase cliché que quem perde alguém importante tanto ouve "Eles não iam querer que desistisses" ou "Onde quer que estejam eles não estão felizes por estares a sofrer assim" torna-se irritante para quem perdeu quem mais amava e ficou sem nada porque lutar e ser feliz. Mas, se não é para lutar pela vida, então porque é que sobreviveu? Por vezes a vida dá-nos segundas oportunidades uma e outra vez e no caso de Emília, que a meu ver era a mais danificada a todos os níveis, o ter sobrevivido e ter conhecido Diogo foram as suas segundas oportunidades.
Adorei a forma como a autora interliga a cultura portuguesa e a brasileira, dando espaço necessário para os leitores conheceram ambas. Quem é brasileiro e leu este livro, com certeza apaixonou-se pela nossa cultura e tradições e, nós, portugueses, ficaram, no mínimo, com o bichinho de um dia poderem conhecer ao vivo e a cores os sítios que Diogo teve a sorte de conhecer (ou pelo menos sítios parecidos). 
Assim sendo, recomendo vivamente lerem esta história de Emília e Diogo. Não se vão arrepender.
Ansiosa por ler o que aí vem a seguir... Será que Rafaela e Leonardo (terapeuta de Diogo) vão acabar por reconciliar-se com o passado e seguir em frente? Vamos esperar para saber :)

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